2021

2021 foi um ano de viver as escolhas que eu fiz. Como disse Bernard Shaw, “Há duas tragédias na vida, uma é não conseguir o que o coração deseja, e a outra é conseguir”. Foi um ano de realizar um sonho que sempre tive (mudar para fora do país, mais especificamente pra Alemanha) e outro que nunca tive (casar 🤣), mas acima disso, me adaptar a essas duas grandes mudanças e “segurar a onda” quando as coisas ficaram difíceis.

O motivo da mudança foi uma oportunidade de trabalho que consegui pela Capco, empresa multinacional que eu já tinha colaborado anteriormente em outro projeto no Brasil. Essa escolha já havia sido tomada, mas por motivos de pandemia demorou mais do que o previsto pra acontecer 🤷🏽‍♀️. A escolha seguinte foi uma consequência da primeira, eu que nunca me imaginei casando no civil precisei escolher entre terminar o relacionamento ou assinar o papel pra embarcarmos juntos. Por sorte o André é tao aventureiro quanto eu. Dissemos “sim” e aqui estamos.

Mudar de país teve seus desafios tradicionais (processos burocráticos de registro, choque cultural, barreiras de idioma, etc) combinados com os desafios do primeiro ano em uma empresa nova, com outra cultura de trabalho e 100% fora do meu idioma nativo, tudo isso agravado pela pandemia. Reaprender a dividir minha vida com alguém foi outra aventura, considerando que passei os últimos anos morando sozinha e dependendo emocionalmente só dos meus gatos 🐱. Resumindo, construir um lar por aqui foi mais difícil do que a gente imaginava, por muitos motivos, que vou contar melhor na sequência.

Casamento

O casamento foi dividido em duas partes, um almoço em Caxias do Sul/RS onde eu e o André morávamos, e outro almoço em São Paulo. Foi bem simples e bonito, uma pena não poder incluir alguns amigos próximos e outros parentes por causa da pandemia – por outro lado foi simples e romântico, pudemos passar um tempo de qualidade com as pessoas mais presentes na nossa vida.

O plano era embarcar sozinha pra Alemanha, viver dois meses em um flat facilitado pela empresa, me registrar no país, procurar um apartamento e etc, pra depois receber o André com os pets (meu gatinho Pirralho e o cachorrinho Wolfie). Graças a pandemia não foi bem assim.

Primeiros meses na Alemanha

Quando cheguei na Alemanha no fim de Janeiro eu tinha pego o último vôo antes do fechamento das fronteiras com o Brasil. Na época estava rolando a crise de Manaus. A idéia do André vir com os pets depois de dois meses não foi mais possível, naquelas condições a entrada dele não era mais permitida. Fomos aconselhados a “esperar as coisas melhorarem no Brasil”, porque eventualmente as fronteiras abririam de novo, mas a situação no Brasil piorava a cada mês (obrigada Bolsuíno e seus eleitores pela crise alcançada). Não sabíamos quando as coisas iam melhorar, se seriam mais três meses ou um ano.

Em Frankfurt a demanda por apartamentos é mais alta que a oferta, e o fato de eu ser uma recém chegada, com visto temporário e sem histórico bancário, não me colocava em uma posição competitiva. O acaso foi gentil comigo, e no final do meu segundo mês no país uma colega de trabalho comentou sobre um apartamento direto com a proprietária que não havia sido anunciado publicamente ainda. Entrei em contato com a proprietária no mesmo dia e no dia seguinte marcamos a visita. Ela também trabalha com TI e a conexão foi bem legal, a negociação deu certo e em menos de uma semana eu estava com o contrato assinado.

O apartamento havia sido restaurado recentemente e não tinha nem pia na cozinha. Por aqui os serviços de cozinha planejada e outros tipos de manutenção são muito caros, e o “cartão de crédito” não é bem o crédito que a gente conhece – você paga a fatura no fim do mês mas não consegue parcelar diretamente pelo cartão, e a maioria das lojas não oferece essa opção. No Brasil eu teria comprado tudo de uma vez, em quantas parcelas fossem necessárias, além de contratar pessoas pra fazerem a instalação. Aqui o processo foi mais difícil e demorado, e no meu primeiro mês eu comi em uma mesa de acampamento que um amigo emprestou, usando um fogão de uma boca 🙂

O meu primeiro mês morando sozinha no apartamento novo, ainda vazio, sem poder passear na cidade por causa do lockdown, sem saber quando eu veria o André (marido) e o Pirralho (meu gato), lidando com outros desafios no trabalho e de adaptação no país foi bem complicado. Até que me deram a idéia de encontrar com o André na Croácia, e entrar novamente na Alemanha por lá. Valia a tentativa, e no mínimo a gente poderia se ver por um tempo em um lugar legal.

Croácia

Uma semana depois dessa idéia, o André embarcou em um vôo com escala em Frankfurt, nos encontramos lá e voamos juntos para Zagreb. Entrávamos em contato regularmente com a polícia federal do aeroporto, até que eles nos disseram que era seguro para entrar, afinal a restrição de entrada era pra pessoas vindo do Brasil e não especificamente para brasileiros. Por causa dessa situação não pudemos trazer os pets imediatamente, mas minha sogrinha foi um anjo e cuidou deles até que pudemos ir buscá-los no Brasil mais tarde.

Esse período na Croácia foi bem interessante, conhecemos algumas cidades (Zagreb, Trogir, Split e Pula), e ao mesmo tempo desconfortável, por causa da ansiedade de não saber exatamente quando poderíamos entrar na Alemanha. Ficamos 40 dias no país trabalhando remotamente, e finalmente conseguimos ir pra casa em Frankfurt.

Recomeço em Frankfurt

Quando voltamos pra Frankfurt focamos em nos estabelecer. Concluímos o registro no país, recebemos o visto de longa duração, mobiliamos a casa (um cômodo por mês), viajamos novamente para o Brasil pra buscar os pets e o restante das coisas do André, e quando voltamos, começamos o curso de alemão. Em dezembro, a família estava reunida, a casa equipada, e conseguimos superar os desafios básicos pra começar nossa vida por aqui.

Em relação a estilo de vida, sinto mais falta de ter acesso rápido a “água fresca”, rios, cachoeiras e praias, mas em compensação tenho acesso a experiências culturais bem mais diversas do que eu teria em São Paulo. Frankfurt é uma cidade extremamente internacionalizada, composta de aproximadamente 50% de imigrantes. Algumas bandas e artistas visitam a cidade com muito mais freqquência que visitariam o Brasil. Sem contar a diversidade de opções de restaurantes – aqui é mais difícil encontrar culinária Alemã do que culinária estrangeira, como Tailandesa, Vietnamita, Marroquina e o que vocês puderem imaginar. Além de tudo, me sinto segura andando na rua e no transporte público, e isso não tem preço.

Sinto falta de estar próxima a minha família e amigos, mas pra ser bem sincera essa distância começou no ano anterior, em que o nosso contato foi reduzido a ligações de vídeo por causa da pandemia, então apesar de estarmos mais longe, a distância não foi exatamente um choque.

Dizem que pode demorar um ano até você receber um convite pra um jantar na casa de um Alemão, mas no nosso caso fomos bem recebidos pelos vizinhos e já temos alguns amigos por aqui.

Trabalho

Pra embarcar nessa oportunidade eu aceitei “voltar um passo atrás” na carreira, e lidar com coisas que no Brasil eu não passava mais há uns anos. Fui designada como Lead Dev dois meses depois de entrar no projeto, mas ainda assim os desafios de comunicação pesaram bastante.

Gosto bastante da política de férias e “sick leaves” do país, bem mais interessante do que no sistema CLT do Brasil. Aqui você é obrigado a tirar os 30 dias de férias antes de completar um ano, e pode fazer a distribuição que quiser – 5 dias em um mês, 10 dias em outro, e outros dias espalhados durante o ano pra prolongar feriados, por exemplo. E se você estiver doente ou indisposto, você tem direito a duas ausências sem justificativa. Eu detesto a idéia de precisar ir pro médico pegar atestado quando tudo que você precisa é descanso e paz pra se recuperar. Aqui é claro que se o problema for mais sério você vai precisar ir pro médico e tirar uma licensa mais longa, mas pra coisas menores você pode simplesmente avisar seu time que não está se sentindo bem e se recuperar, sem ser julgado por isso.

O sistema de saúde público é de qualidade e acessível a todos. No Brasil tenho bastante orgulho do SUS obviamente, mas quem tem condições de pagar por uma infraestrutura melhor tem que lidar com os convênio médico, que são basicamente cartéis, corruptos e burocráticos. O sistema aqui funciona, porém é financiado por impostos altíssimos, o que foi outro choque pra mim – quase 40% do salário vai embora com impostos e seguros, incluindo a contribuição para o seguro de saúde.

Comunidade de TI

Na comunidade não fui tão ativa quanto gostaria, considerando que 2021 foi o meu primeiro ano após ser nomeada Microsoft MVP, mas contribuí com o que pude dentro do que foi permitido pela minha situação.

Projeto Soltando Nós

Teve o lançamento do projeto #SoltandoNós também. Horas e horas de edição com o André, até que finalmente saiu (não viu ainda? Link na bio). O álbum de estúdio está ainda em produção, com melodias revisadas e outras melhorias.

Em resumo…

Nesse ano estou mais orgulhosa de não ter desistido. Muitas coisas novas que eu queria ter realizado tiveram que ser deixadas pra depois, mas estou contente de ter sobrevivido a essa mudança, construído o fundamento da minha vida nova aqui (casa, trabalho, curso de alemão etc), concluído algumas coisas que comecei. Foi um ano de olhar com mais atenção pra minha saúde mental porque não tenho mais 16 anos e não acho mais que sou invencível 🙂

Mais importante foi entender que conseguir algo é só o começo. Qualquer coisa boa pode se transformar em algo ruim se você não estiver disposto a valorizar o lado bom e lidar com o lado ruim. Fazer uma decisão valer a pena é um processo. Desistir prematuramente é abrir mão das experiências que a gente pode viver onde se está. E com o tempo, se precisar, mudamos de idéia. 🙂

Publicado por

Grazi Bonizi

Coordeno a trilha de Arquitetura .Net no The Developers Conference, compartilho código no GitHub, escrevo no Medium e no Blog da Lambda3, e participo de Meetups e PodCasts normalmente sobre DevOps, Azure, .Net, Docker/Kubernetes e DDD

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